Capítulo IV

 

 Um forte estrépido fez tudo o que estava no quarto tremer violentamente. O barulho de alguns objetos tombando no chão me fez acordar assustada, fiquei preocupada com o que poderia ter sido aquilo.


Ao sair do trailer entendi subitamente o que havia acontecido: Narc estava saindo da picape, provavelmente havia puxado o trailer para um lugar longe de Campbell. Estávamos em uma montanha cercada de rochedos.


– bom dia! – bradou Narc enquanto se dirigia para perto de mim.
– bom dia. Aonde estamos? 
– Sabia que faria esta pergunta... – ele fez uma pausa para rir – estamos em Heaven, uma cidadezinha no sul do estado. 


A alegria de estar ainda mais longe de tudo e todos tomou conta do meu ser. Campbell ficava no norte.
– passei a madrugada e boa parte da manhã viajando, mas valeu a pena. Pensei em fazer um pique-nique naquele bosque rocheiro ali ao lado, que tal?
– demais! – eu simplesmente não podia acreditar.


Troquei-me rapidamente, animadíssima com a ideia de conhecer um bosque de perto. Receei estar com uma roupa muito vulgar, nunca fui muito fã de blusas que deixam a barriga à mostra, mas estava muito ansiosa para vestir outra.

 

– você está linda! Vamos?  – confirmei com a cabeça, ligeiramente embaraçada pelo modo que Narcissus olhava para minha roupa.


Partimos assim que ele pegou duas enormes bolsas repletas de mantimentos. Fiquei simplesmente pasma com tanta beleza: uma pequena cascata formava-se no alto de uma pedra e desembocava no lago; havia muitas flores, árvores e uma graciosa caverninha.


Corri como uma criança solta em um parque de diversão, maravilhada com tudo o que pensei existir apenas em quadros paisagistas. Brinquei com as flores, deitei sobre a grama, molhei meus pés na cascata e até subi em algumas árvores.


Estava observando um conjunto de papoulas que nascia junto ao rochedo quando escutei um grito:
– Venha comer, Alex! O pique-nique está pronto!


Uma imensa variedade de alimentos estava posta sobre o tapete. Puxei um prato para mim e peguei o máximo de comida que pude antes que Narc sequer cogitasse dizer "sirva-se".


– e aí, o que achou do lugar? 
– simplesmente amei, Narc! – respondi ainda que a pergunta me parecesse óbvia. Tudo ali era encantador, um lugar perfeito para fazer pique-nique e para relaxar. Estar em contato com a natureza é indescritível.


Eu não sabia dizer o que fez com que aquele momento fosse perfeito: desfrutar da companhia de Narc ou devorar os biscoitos, donuts, salgados e bolos do pique-nique. Pensei que talvez fosse as duas coisas.


Passado algum tempo uma enorme nuvem negra cobriu toda a área do bosque e começou a chover. De início parecia uma garoa inofensiva, mas depois as gotas d'água começaram a machucar. 
– é uma chuva de granizo! –Narc anunciou ao cobrir a cabeça com as mãos.
– não acredito... 


– proteja a cabeça e corra para a caverna quando eu disser "três". – ele gritou para que sua voz sobressaísse ao barulho ensurdecedor dos trovões – um... dois... três! 
Dito isso, corremos juntos para o fundo da caverna e nos acomodamos nas pedras que jaziam ali.


Alguns instantes depois de nos abrigarmos ali, um raio partiu uma pequena pedra do bosque ao meio. Estremeci. E se as pedras da caverna não fossem páreo para os grandes raios que desciam dos céus? Notando minha aflição Narc me envolveu em um abraço e segurou minha mão
– vai ficar tudo bem... – ele disse, meio apreensivo, como se tivesse tanto medo quanto eu.


Os raios atingiam as árvores com cada vez mais frequência, assim como a chuva, cada vez mais violenta. Sempre que sentia um calafrio passar por meu corpo Narcissus me acolhia gentilmente. Por mais estranho que pareça, sua presença faz com que me sinta segura.


Quando um trovão ameaçou atingir a caverna, saltei para o colo dele, como uma criança assustada. Encaixei meu rosto em seu ombro e apertei seu corpo contra o meu. Ele deslizou as mãos suavemente pelas minhas costas.
– obrigada por me fazer sentir segura. – sussurrei em seu ouvido.


Com um gesto totalmente impensado atirei-me em cima de Narcissus e colei meus lábios nos dele, com tanta euforia que por um triz ele não perdeu o equilíbrio. Suas mãos procuraram um lugar para apoiar e ele quase caiu, mas conseguiu se manter naquela posição, na pressa de retribuir meu beijo.


Aos poucos ele introduziu a língua e eu tentei acompanhá-lo, sem saber ao certo como fazê-lo. O calor de nossos corpos aumentava cada vez mais e a ventania gélida pareceu ter cessado por um momento. Aquele foi o meu primeiro (e perfeito) beijo.


Só nos desgrudamos quando o barulho estrondoso das trovoadas e de pedras de granizo batendo violentamente nas rochas parou. Saímos silenciosamente da caverna e guardamos os restos do pique-nique, o solo estava salpicado de pedrinhas transparentes.


Retornei ao trailer cabisbaixa e em silêncio. Tranquei-me no meu quarto, com vontade de sumir, pausar minha existência por um momento. Meu cérebro tinha dificuldades para aceitar o que havia acontecido, não podia ser verdade; tudo parecia um sonho sem nexo.


Graças a Deus o anoitecer não demorou para chegar. Notando que o céu já estava escuro, prendi meu cabelo e fui tomar um banho. Demorei o máximo que pude, na esperança de que o banho me trouxesse sono, e que aquele dia acabasse logo. 


Enrolei-me em uma toalha assim que percebi que há muito já havia passado do prazo de quinze minutos de banho. Estava virando-me para sair quando noto um gemido de constrangimento atrás de mim.


– perdão, eu... eu queria tomar banho, mas estava absorto demais em meus pensamentos para notar que você estava aí. – Narcissus desculpou-se, vergonhoso.
 – tu-tu...tudo...bem – queria muito não ter parecido uma idiota a balbuciar, mas as cenas do beijo rodavam em minha cabeça como em um filme, fazendo a timidez subir à cabeça.


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