O dia seguinte aparentava ser apenas mais um dia normal e tedioso no Internato. Como de costume, Ayame passou o café tagarelando sobre coisas que não interessavam a ninguém enquanto Loren e eu comíamos em silêncio.
A primeira aula do dia foi herbologia: uma matéria que só o ISL ensina. É bastante inútil, mas em compensação, é divertida. Minhas plantas estão cada vez mais lindas e sadias!
No intervalo da quarta aula, aproveitei para sair e tomar uma água. O único bebedor disponível era o do corredor 5... ele estava lá. Me espionando. Senti um arrepio tomar conta do meu corpo quando ouvi sua voz grave dizendo "oi".
– oi – cumprimentei-o depois de me aproximar para ver de perto seu sorriso encantador. Não sei ao certo de onde surgiu a coragem para falar com o homem, talvez fosse um efeito tardio de minha primeira cerveja.
– caramba, quanto lixo! – fiquei espantada com a enorme pilha de lixo ao lado da vassoura. O dia mal tinha começado e tudo isso já havia sido consumido!
– pois é, seus colegas não são muito ecológicos. Tudo isso estava no chão, acredite. – contou o homem, rindo. Como é que ele conseguia manter o bom humor numa situação dessas?
Depois de alguns segundos de silêncio, ele abriu novamente o sorriso maravilhoso e disse:
– e aí, topa ir tomar um cafézinho no corredor para faxineiros? Não é muita coisa pra gente do seu "naipe" – ele frizou – mas é tudo o que posso oferecer agora.
– mas é claro que topo! – aceitei, rindo junto com ele. Impossível conter a vontade de sorrir diante daquele sorriso radiante.
Não muito longe do corredor 5 jazia uma máquina de expresso em um canto isolado. Ninguém parecia passar por lá. O homem acionou a máquina e então me ofereceu uma xícara.
– tim tim! – exclamou ele, batendo sua xícara de leve na minha. Bebi um gole: sem exageros, o expresso estava sensacional. Com certeza superava o da cantina.
Tanto eu quanto ele, nenhum de nós ousou quebrar o silêncio que se seguia entre uma golada e outra. Algumas vezes ele me encarava com seus perfeitos olhos cinzentos e puxados, exibindo um meio sorriso extremamente charmoso.
Não demorou muito para que esvaziássemos as pequenas xícaras de café. Eu adoraria tomar mais umas vinte, principalmente para desfrutar da companhia daquele homem, mas eu já estava demasiado atrasada para a aula.
– Muito obrigada pelo expresso, eu repetiria a dose se não tivesse que voltar para a sala de aula agora. – lamentei com sinceridade.
– Mas já? – sabia que era uma pergunta retórica e fiquei calada, esperando que ele dissesse mais alguma coisa – Espero que possamos repetir a dose outro dia, então...
Dito isso, ele me puxou para um abraço um tanto íntimo, aproximou bastante seu rosto e beijou minha bochecha de leve. Eu tremia tanto que foi inevitável apoiar-me em seus ombros, e mais inevitável ainda me aconchegar neles.
Após ouvir uma severa bronca, consegui voltar para a sala de aula, porém foi impossível me concentrar nas aulas seguintes. Só pensava naqueles olhos azuis-cinzentos me encarando, naquele meio sorriso, na ternura e na gentileza que o homem dispersara comigo sem nenhum motivo aparente.
Ao tocar da sineta, já disparei em direção a biblioteca. Tentei ler um livro, mas também me parecia impossível. Não conseguia entender por que o faxineiro estava sendo tão legal comigo... não fazia sentido.
Optei por passar o resto de tarde, então, no alto de um brinquedo, admirando as belas montanhas. Elas eram o meu consolo, me animavam quando eu quase enlouquecia de ódio por estar trancafiada naquele Internato maldito.
No dia seguinte, tivemos de assistir uma palestra que durou a manhã inteira e uma parte da tarde. Passaram pelo palco vários educadores famosos falando sobre diversas matérias.
Passei a maior parte do dia escutando Jean contar cada detalhe do que acontecia com as pessoas do colégio. Não sei ao certo se odiei a palestra em si, ou se odiei ter que ficar logo atrás desse fofoqueiro idiota.
Assim que consegui ficar livre daquele auditório, caminhei em direção ao corredor 5, meu coração extremamente acelerado. Ele poderia surgir a qualquer minuto...
Foi então que reparei que ele estava no canto do corredor. Estava entrando pela porta do armário de limpeza quando não resisti e gritei:
– oi... – oscilei – tudo bem?
Fui andando em sua direção, cambaleando, para ser mais exata.
– oi! – ele parecia um pouco surpreso de me ver ali.
– podemos conversar? – tentei parecer sutil.
– claro, entre comigo.
Segui seus passos e logo estávamos dentro de um minúsculo armário que cheirava a mofo, repleto de materiais para limpeza. Nos sentamos ao mesmo tempo.
Diante de alguns minutos de silêncio, tive a iniciativa de perguntar o que estava me incomodando.
– por que você conversa comigo? – percebendo que a frase soou muito rude, me apressei para completá-la – Quero dizer, o que você viu de tão bom em mim...
Ele me interrompeu com uma gargalhada e acrescentou logo em seguida:
– eu não preciso conhecer uma pessoa para saber se ela é especial ou não. Reconheço uma pessoa especial de longe.
Depois dessa declaração, não consegui dizer absolutamente nada. Ignorando meu rubor e meu embaraço, o homem continuou a falar
– você deve estar se perguntando quem sou eu, afinal...
– meu nome é Narcissus, Narcissus Marx, mas todos me chamam de Narc. Sou órfão, a rua me criou e educou, e depois de muita luta aqui estou eu.
Aproveitando a deixa, atropelei a história de Narc para resumir a minha
– meu nome é Alexis Campbell, meus pais são muito ricos e se importam com qualquer coisa que não sejam seus filhos, não tenho amigos de verdade e odeio morar no "Inferno Saint Laurence".
– você está falando sério ou só está zoando? – ele perguntou, cético.
– estou falando sério. – dei uma risadinha de deboche – Sou a prova viva de que dinheiro e felicidade são dois assuntos paralelos e independentes.
– então me parece que a vida nunca foi muito justa para nós dois. – afirmou Narc. Sorri agradecida por ter alguém para partilhar minhas tristezas.
Um barulho estridente arranhou meus ouvidos, logo em seguida um homem perguntou:
– ei, Narc, você está aí?
– estou, Carlinhos. Já estou de saída, vim pegar uma vassoura – respondeu Narc enquanto se levantava. Desorientada, me apressei para levantar, também.
– ahh, tudo bem. É que estamos precisando de você lá no corredor 4 e não conseguimos te localizar. – bradou o tal Carlinhos detrás da porta.
– okay, já estou indo pra lá – disse Narc com um tom preocupado
Depois de certificar-se que Carlinhos já havia ido embora, Narc justificou-se
– aquele é o meu chefe – sussurrou, embaraçado
– tudo bem. Podemos nos ver outro dia. – sussurrei, mais para me consolar-me do que para consolá-lo
Ele segurou minhas mãos, respirou fundo e perguntou:
– então, será que podemos nos encontrar aqui amanhã, nesse mesmo horário?
– c-claro – gaguejei, surpresa com seu convite e ruborizada por sentir o calor de suas mãos nas minhas.
Narc foi soltando minhas mãos devagar. Deu uma piscadela e abriu seu sorriso radiante antes de sair, me deixando completamente embevecida.

































