querido diário... caramba, como é clichê começar um diário assim. É que este é meu primeiro diário e, bem, estou sem ideias sobre como começar a contar sobre minha vida. Para começar, meu nome é Alexis e tenho 16 anos.
meus pais moram em uma linda mansão, alguns dizem ser a mais bonita da cidade de Campbell.
meu pai, Jensen Ferrera, é o mais bem-sucedido executivo da cidade. O problema é que ele só tem tempo pro trabalho. Nunca relaxa, nem sequer dorme direito: vive no computador, seja o da empresa ou o do escritório de casa.
minha mãe é uma típica perua que vive as custas do marido rico, se é que me entendem. Nem preciso mencionar que sua vida é completamente dedicada à estética, roupas e eventos, não é?
meu irmão é o único parente que parece se importar comigo na família. Mas não confio nele. É que desde alguns anos ele tem se envolvido com... hã..."viajado" muito. Atualmente, ele mora numa república e raramente fica em casa, está cursando faculdade de sustentabilidade (não sei porque diabos ele escolheu essa matéria)
Ah, ainda não contei onde moro, não é? Moro no Internato Saint Laurence, ISL, o mais caro internato-colégio da região. Lá é simplesmente um saco!
Estudar já não é uma tarefa muito divertida, mas lá é quase impossível prestar atenção nas aulas. Pense no cúmulo do tédio. Pois é, ainda assim posso afirmar que as aulas do ISL são piores do que o cúmulo do tédio que você tem em mente.
Para piorar, minha popularidade naquele lugar é igual à de um saco de farinha...
... se bem que alguns preferem conversar com o saco do que comigo...
Enfim, resumindo, eu detesto aquele lugar e as pessoas de lá! 99,9% delas são metidas à superiores e insuportáveis.
Eu e mais três meninas lanchamos na mesma mesa: juntas formamos "o clã dos impopulares". Lá no ISL, só é popular quem entende de moda ou quem é "bem informado" (vulgo "fofoqueiro"). Nos sentamos na última mesa, perto da janela, e costumamos sair para lanchar quando o refeitório está mais vazio para evitar ouvir piadinhas constrangedoras.
Ayame é uma espécie de "líder" desse grupo. Ela é a mais popular entre as três impopulares. É super-mega-hiper-master inteligente e vive nos censurando por comermos porcarias na hora do lanche. Sem contar que sempre tenta empurrar suas gororobas saudáveis em mim. Argh!
Loren é a segunda mais popular do trio impopular. Aliás, nem sei porque ela é impopular: sempre atenta à moda, simpática, esperta, e acima de tudo é a melhor amiga do garoto mais fofoqueiro-popular do ISL: Jean-Paul Roux.
Uma das piores desvantagens de morar lá é que as camas do dormitório feminino são organizadas em ordem alfabética, segundo o sobrenome. Ou seja, como meu sobrenome é Ferrera, durmo ao lado das Almére, Borba e Castro; as meninas mais metidas do ISL. Mas já estou acostumada.
Ah, quase esqueci de contar. Ultimamente, sempre que passo no corredor 5, um faxineiro (aparentemente novato) maravilhoso ri para mim e fala "oi". Não entendo porque ele fala justo comigo, uma menina sem muitos atrativos e muito comum, eu nem sequer conheço ele! Acho que as meninas do Internato só não investem nele porque é um faxineiro...
– Caramba, parece que escrevi demais! – exclamei quando finalmente terminei de escrever no meu novo "diário-caderno".
– FILHÁAAA! – uma voz berrou e me assustou poucos segundos depois. Reconheci imediatamente, era a voz de urgência da minha mãe.
– Já estou indo, mãe! – exclamei e desci às pressas, com o diário na mão, torcendo pra que não fosse só mais um de seus chiliques.
Passei na sala de estar para guardar o meu diário assim que percebi que ainda o carregava, quando ouvi outro berro:
– ANDA LOGO, QUE EU NÃO TENHO O DIA TODO, NÃO! – minha mãe gritou com mais raiva ainda, se é que isso é possível.
– JÁ TÔ INDO, MÃAAAE. – gritei e abandonei meu diário no chão.
– Onde é que estão meus brincos talhados em diamante que deixei nessa mesinha? – ela esbravejou, com arrogância. Tentando manter a calma, respondi:
– não sei, mãe. Já procurou em outros lugares?
Não satisfeita, ela continuou:
– Não se faça de sonsa, garota, eu sei muito bem onde guardo minhas coisas. Se não foi você quem pegou, quem foi? Seu irmão?
– Aposto que só está gritando assim porque sabe que é mais possível que meu irmão use um brinco do que eu. – afirmei, ainda mantendo a calma.
– Não aguento mais, isso tudo é insuportável, isso tudo! Pra quê fui engravidar, pra quê fui ser mãe... – e lá se foi Sandra Julien Ferrera, batendo os pés e puxando os cabelos, em um de seus dramáticos chiliques. Não consegui me segurar e acabei dizendo o que queria dizer:
– pois é, pra quê foi ter filhos se não é competente o bastante nem pra criar uma formiga, "mamãe".
Peguei meu MP4 no quarto e saí, irritada. Sentei no quintal e coloquei o som no máximo. Inspirei e expirei fundo, apertei as pálpebras... nada disso parecia dar certo, a raiva não ia embora. Tudo o que eu queria era poder fugir dali, ir para um lugar bem longe onde ninguém me conhecesse.
Depois de muito tempo lá embaixo, percebi que não conseguiria espairecer a raiva sozinha. Abaixei o volume do MP4 e entrei no quarto de meu irmão: o parceiro de "viagem" dele tinha trocado a roupa, pelo visto mais amigos tinham chegado. Um deles estava nu.
– qual é maninha, chega mais, vem relaxar com a gente.
Normalmente, minha reação seria recusar e sair correndo e enfiar a cara nos livros e revistas, mas eu já estava cansada de tudo e todos, já não estava nem aí pra mais nada. Peguei uma garrafa de cerveja da mesinha, respirei devagar e virei–a em minha boca.
Depois de uma boa golada, sentei e fiquei naquela roda até acabar a garrafa. Não consigo me lembrar do conteúdo daquela conversa, tudo o que lembro é que só saí dali quando me dei conta de que havia acabado de elogiar o tamanho do... órgão sexual do homem nudista.
Olhei para a janela: estava escurecendo, logo a noite cairia. Estava me sentindo tão bem! Era como se nada mais importasse, como se nada pudesse me atingir. Presumi que fosse um efeito colateral de minha primeira cerveja e corri para um banho.
Inexplicável o quanto gostava dessa casa, apesar de tudo. Na verdade, eu gosto de qualquer lugar que não seja o ISL. Não suportava a ideia de ter que deixar o conforto da minha casa para voltar àquele inferno.
Naquela noite eu me recusei a ir dormir: queria curtir a casa o máximo que podia. Passei a noite virando páginas de revistas, livros, biografias e enciclopédias.
Quando finalmente consegui fechar os olhos, um bipe agudo soou. Abri os olhos devagar, meu iPhone anunciava que era hora de acordar. Eu estava me sentindo detonada por um grande caminhão.
Sabia que ninguém estaria acordado àquela hora e que os empregados não trabalhavam nos fins de semana, por isso a primeira coisa que fiz ao ganhar forças para acordar foi preparar meu próprio café da manhã.
Somente durante o café consegui reparar no quanto a sensação de abandono estava me incomodando ultimamente. Não conseguia entender o motivo, desde pequena eu encarava essa sensação com naturalidade. Mas estava cansada da rotina, estava cansada daquele maldito Internato, e sobretudo, da indiferença dos meus pais para comigo.
O único problema era a falta de esperança, não encontrava nada que me motivasse a jogar tudo pro alto e correr em busca da minha felicidade. Se eu ao menos tivesse uma amiga de verdade, um parente que morasse bem longe, qualquer coisa do tipo... mas eu não tinha.
Não tardou para os primeiros raios de sol aparecerem no céu, percebi-os pouco depois que terminei o café. "Ainda é muito cedo e ninguém deve estar acordado", pensei, mas uma luz e um barulho frenético me chamaram a atenção.
Meu pai estava acordado, pelo visto para continuar a se submeter a escravidão que chamava de trabalho.
– pai, que horas o senhor vai me levar para o ISL? – perguntei, no fundo esperando que ele me levasse dessa vez e não jogasse a tarefa em cima de algum empregado.
– Abel te levará às nove horas em ponto. – respondeu-me friamente, de olhos grudados na tela do computador, digitando com força.
– Senhorita, precisa se levantar! Estamos atrasados! – uma voz suave, porém nervosa invadiu subitamente meus sonhos.
– es...tou...indo – balbuciei, tentando encontrar forças para me levantar.
– O senhor Jensen pediu que a senhorita verificasse se há necessidade de levar alguma roupa. – disse Abel, agora com a voz mais calma.
– certo. – respondi, entre um bocejo – Estou subindo.
Joguei uma pilha de roupas no chão, vasculhei todo o meu guarda-roupa para atrasar meu retorno o máximo possível. Quando não deu mais para adiar a partida, troquei de roupa e desci, pronta para subir na Mercedez que me aguardava.
– A senhorita está pronta? – Abel perguntou serenemente quando me acomodei no banco da frente.
– sim... – menti. A verdade é que nunca estava pronta para voltar.
Para meu azar, a viagem não era longa. Cheguei mais rápido do que previa. Agradeci Abel pelo favor, afinal não devia ter sido fácil acordar bem cedo para me dar uma carona em um domingo.
Assim que cheguei, fui para o corredor do canto encontrar com Loren. Sempre nos encontrávamos ali.
– ooooi, Alex – ela me cumprimentou com um aceno empolgado, e eu lhe retribuí.
– meu...Deus... do céu! Você está com olheiras enormes! – por um momento me assustei com a expressão de Loren, pensei que tivesse uma tarântula em meu cabelo ou algo desse tipo. – Posso corrigí-las? Deeeeixa!?
– Não precisa... amanhã eu deixo, se não tiverem saído. – acrescentei, sabendo que se não permitisse, ela não me deixaria em paz.
– Adivinhem só! – Ayame interrompeu, eufórica. Só tinha uma razão para isso: uma nota absurdamente boa ou um privilégio qualquer relacionado à matemática. – Ganhei o Décimo Campeonato Municipal Theodore Martinz De Matemática!
– parabéns, Ayame. Você merece. – eu afirmei, desanimada. Loren nem se deu ao trabalho de fingir ser gentil.
– eu sei. – Ayame disse, com um sorriso de desdém. Pensei ter visto Loren revirar os olhos, as duas nunca se deram muito bem. – Então, não posso ficar conversando se quiser vencer o campeonato estadual. Vejo vocês depois!
Loren e eu passamos o tempo que tínhamos até as aulas extra-curriculares começarem jogando Adedanha em livros antigos. Embora gostasse muito de Loren, lamentava não poder confiar nela. Tudo o que contam para ela, ela conta para o Jean: ou seja, é quase a mesma coisa de anunciar em um jornal escolar. Todos ficam sabendo.
No Internato, nem nos domingos temos sossego. Fazemos aulas complementares para nossos currículos. Pelo menos podemos escolher quais matérias queremos cursar, devemos fazer pelo menos três.
A única vantagem de ter aula aos domingos é que não preciso me preocupar em arrumar um passatempo que preencha minha mente. Isso, de certa forma, é bom. Pelo menos é melhor do que ouvir Ayame se gabando.
Quando finalmente terminamos as aulas, Loren me chamou para bater um papo na área de recreação. A luz do crepúsculo inundava as montanhas, deixando-as com tom amarelado. Se tinha uma coisa que eu gostava naquele Internato era a vista maravilhosa.
Mal chegamos e a noite caiu, traiçoeira. Subimos às pressas para o dormitório, para tomar banho e preparar para dormir. Estava tão cansada que não consegui pensar em nada, apenas fechei os olhos e dormi.
















































